Construção
E tem eleição no Diretório Central dos Estudantes. Agitam-se os espaços universitários e virtuais: cartazes de todas as cores, discursos de todas as formas. Pela primeira vez nestes meus cinco anos de Úrgues escolho apoiar e construir uma chapa diferente da que, hoje e na maioria dos anos anteriores, gere o DCE. Pela primeira vez em cinco anos sinto que algo verdadeiramente novo precisa ser construído no movimento estudantil desta universidade.
Cinco também é o número de chapas desta eleição - e cinco é o número que ostenta a chapa que escolhi como minha. Dos amigos e companheiros de longa data que permanecem na que hoje é a chapa 1, guardo respeito e carinho, mas também alguma coisa parecida com a apreensão, por vê-los cada vez mais ausentes das lutas que participo, ausentes de pautas políticas que de tão próximas da gente não poderiam ser ignoradas por indivíduos politizados. Não poderiam, mas são. Talvez por que esses companheiros priorizem o crescimento de seus partidos; quando deveriam priorizar os movimentos que mudam a vida das pessoas. Talvez por que eles tenham uma concepção muito diferente da minha - e às vezes até antagônica - de como devem ser travadas as lutas sociais, essas peleias por uma vida menos ordinária. O fato é que são raros os companheiros da atual gestão do DCE que encontro nas passeatas ou debates que me fazem sair de casa com a esperança de estar construindo coisas novas. O fato é que não os encontro massivamente nas lutas que não envolvam seus partidos - não os vejo na Massa Crítica, na ocupação semanal do Largo Glênio Peres, na Marcha da Maconha ou em qualquer outra dessas batalhas pacíficas que tomam conta da cidade mas que não trazem benefícios diretos a suas organizações partidárias. E isso me fere, por que toda essa ausência impede que uma soma de forças ainda maior aconteça, impede que a cidade e o mundo e a vida sejam empurrados com uma força ainda maior rumo a um futuro mais justo. E fique claro que não sou contra a militância dos estudantes em partidos, ainda que não me considere representado por nenhum dos que existem na atualidade. Esta América Morena sangrou durante décadas, recentes, pra que partidos tivessem o direito de existir. O problema não está no envolvimento profundo dos membros das outras chapas com partidos políticos - e aí falo das chapas 1, 2, 3 e 4 - e sim no fato desses indivíduos priorizarem sempre a atuação partidária, quando na verdade são eleitos (ou tentam sê-lo) para levar a cabo as pautas que expuseram durante as eleições.
Mais especificamente sobre as chapas 2 e 4, que ironicamente levam o mesmo nome, DCE Livre, e são atreladas a organizações políticas de direita e ao que há de mais conservador na Universidade, nem preciso dizer nunca cogitei apoiar, por ter escolhido desde a adolescência pela filosofia da humanidade, em vez de optar pela filosofia do dinheiro. A liberdade a que se referem é obviamente a de mercado, a mesma que liberta plenamente a especulação financeira enquanto constrói prisões para acolher os filhos excluídos desse mesmo sistema. Por sorte esses ideólogos do egoísmo social veem ano a ano sua força diminuída: são cada vez menos os estudantes que escolhem dar seu voto e seu apoio aos que atacam a universidade pública enquanto se deleitam com seus benefícios. A hipocrisia cola cada vez menos. E a mim tampouco serve uma chapa como a 3, que aparenta ter como causa maior aplaudir veementemente qualquer ato da reitoria ou do governo - geridos pelo mesmo partido que a coordena. Minha concepção de movimento estudantil se distancia bastante dessa que praticam, pois vejo que é nossa função como estudantes construir uma universidade cada vez mais pública e popular - e maior. Não vejo como função do Movimento contentar-se com as melhorias do últimos anos, que existem, de fato. Enquanto houver muito a ser feito, como o há, é nossa missão empurrar a universidade para o lado que queremos. É preciso um DCE que saiba fiscalizar o poder e ser propositivo, e é justamente isso que vejo nos camaradas da chapa 5, e é por esse motivo que me juntei a eles.
Espero que desta eleição reste um DCE fortalecido e mais democrático e propositivo. Espero que a comunidade universitária possa conhecer nossas propostas e contruí-las com a gente. Espero que as baixarias e os discursos despolitizantes não encontrem eco em nenhuma das chapas, pois uma das funções mais nobres deste pleito é justamente aumentar o nível de conscientização e debate sobre a universidade que queremos.
Enfim, espero amar e mudar as coisas, como diria aquele cearense bigodudo.